Principais disputas cristológicas dos séculos II e III

Disputas estas que acabaram motivando mudanças nos textos dos manuscritos do novo testamento

    -    Adocionistas. (ebionitas de ebyon “pobre”). Cristo era unicamente homem. Ebionitas ou adocionistas era um grupo de cristãos primitivos dos séculos II e III, eram judeus, de onde vem o termo hebraico ebyon, ou seja, “pobre”. Esses seguidores de Jesus imitavam o grupo original dos discípulos de Jesus , abrindo mão de tudo por causa de sua fé, assumindo assim a pobreza voluntária pelo bem dos demais. Adocionistas vem do termo adotado, porque seus adeptos afirmavam que Jesus não era divino, mas um ser humano de carne e osso a quem Deus “adotara” como seu filho, provavelmente por ocasião do batismo.

      -  Docetas. (que vem do termo grego “dokeo” que significa = parecer, dar a impressão de). Os docetas defendiam que Jesus não era um ser humano de carne e osso. Ao contrário, era completamente divino. Apenas “parecia” ou “dava a impressão” de ser um ser humano, de sentir fome, sede, e dor, de sangrar e de morrer. Visto que Jesus era Deus, ele realmente não podia ser um homem. Simplesmente veio a terra sob a “aparência” da carne humana. Conclusão: cristo era completamente divino.

   -   Separacionistas. Uma terceira cristologia que era defendida por uma outra comunidade cristã primitiva, era a que entendia cristo não apenas como humano (como os adocionistas), nem apenas como divino (como os docetas), mas como dois seres, um completamente humano e outro completamente divino. Devemos chamar essa cristologia de “separacionistas” porque ela dividia Jesus Cristo em dois: o homem Jesus (que era completamente humano) e o cristo divino (que era completamente divino). Segundo a cristologia separacionista, o homem Jesus fora temporariamente habitado pelo ser divino, cristo, que o capacitou a realizar seus milagres e a pregar os seus ensinamentos; mas antes da morte de Jesus, o cristo o abandonou, forçando-o a encarar sozinho a sua própria crucificação. Essa cristologia era defendida principalmente pelos grupos de cristãos que os pesquisadores chamam de gnósticos. O termo gnosticismo, que vem do étimo grego para conhecimento, gnosis, é aplicado a um amplo espectro de grupos de cristãos primitivos que enfatizavam a importância do conhecimento secreto para a salvação. Segundo a maioria desses grupos, o mundo material em que vivemos não foi criação do Deus único e verdadeiro. Ele surgiu como resultado de um desastre no reino divino, no qual uma das (muitas) entidades divinas foi, por algum motivo, excluída das regiões celestes. Como resultado de sua queda da divindade, o mundo material veio a ser criado por uma deidade menor, que a capturou e aprisionou em corpos humanos aqui na terra. Alguns seres humanos, portanto, têm uma centelha do divino dentro de si e precisam aprender a verdade de quem são de onde vieram, como chegaram aqui e como podem retornar. 

Aprender essa verdade os conduzirá à salvação. Tal verdade consiste em ensinamentos secretos, misteriosos, “conhecimento” (gnosis), que só pode ser comunicado por um ser divino provindo do domínio celestial. Para os cristãos gnósticos, cristo é o ser divino revelador das verdades de salvação. Em muitos sistemas gnósticos, o cristo sobreveio ao homem Jesus por ocasião de seu batismo, dando-lhe poder para exercer o seu ministério e, no fim, o deixou para que morresse sozinho na cruz. Foi por isso que Jesus bradou: “Deus meu, Deus meu, por que me abandonaste?” Para esses gnósticos, o cristo abandonou Jesus literalmente (ou o deixou para trás). Contudo, depois da morte de Jesus, o cristo o ressuscitou dos mortos como recompensa por sua fidelidade e continuou, por meio dele, a ensinar a seus discípulos as verdades secretas que conduzem à salvação. Conclusão: Jesus era completamente humano e completamente divino ao mesmo tempo.

1)  mudanças para justificar a doutrina que Cristo é Deus

Mudanças anti-adocionistas ou anti-ebionitas:

Evangelho de João 1.1-18 – filho único ou Deus único que está junto do pai? Nos melhores manuscritos diz:

... “filho único que está no seio do pai.”

 Atos 20:28 – igreja de Deus ou igreja do senhor que ele resgatou com seu próprio sangue? Nos melhores manuscritos diz:

... “igreja do senhor, que ele comprou com o seu próprio sangue.

Tal mudança coloca Jesus como Deus, pois fala de Deus que com seu sangue... E desde quando que Deus tem sangue? Entendeu?

 I timoteo 3:16 “Deus manifestado na carne”, ou, “aquele que foi manifestado na carne” ? Nos melhores manuscritos diz:

... “aquele ou que foi manifestado na carne.

 Hebreus 2:9 sem Deus provasse a morte por todos ou pela graça de Deus provasse a morte por todos. Nos melhores manuscritos o texto diz:

... “assim sendo, sem Deus ele deve provar a morte por todos.”

 Aqui para refutar o ensino que Jesus foi abandonado na cruz por Deus, os copistas trocaram sem Deus por pela graça de Deus.

 Lucas 3.22: ”tu és meu filho, hoje eu te gerei”, ou, “tu és meu filho amado, em quem me comprazo”. Nos melhores

manuscritos o texto diz:

... “tu és meu filho, hoje eu te gerei”.

 Tal mudança ocorreu para refutar os defensores adocionistas, ou seja, os ebionitas, que defendiam que Jesus foi adotado na ocasião do batismo. E a maioria das traduções modernas mantém a forma errada ainda hoje.

Nos melhores manuscritos não constam os textos acima, que foram acrescentados ou adulterados por copistas tardios anti-ebionitas ou anti-adocionistas, para justificar que cristo era Deus, porque os adocionistas defendiam que cristo era unicamente homem.

 2) mudanças para justificar doutrina que Cristo é homem: Mudanças antidocetas

Lucas 22:43. 44 - 43 então, lhe apareceu um anjo do céu que o confortava. - 44 e, estando em agonia, orava mais intensamente. E aconteceu que o seu suor se tornou como gotas de sangue caindo sobre a terra.

 Estes dois versículos foram acrescentados para refutar a doutrina de que Jesus era completamente divino, defendida pelos docetas, que diziam que Jesus somente aparentava, ou seja, dava a impressão de que era humano, mas não era. Então sentiram a necessidade de mudar o texto para refutar que ele era completamente divino, então se ele fosse completamente divino como ele sangraria e sentiria agonia?

Outra vez, disputas teológicas! Será que um dia elas terão fim?

 Lucas 22: 17-20 – 17 e, tomando o cálice e havendo dado graças, disse: tomai-o e reparti-o entre vós, 18   porque vos digo que já não beberei do fruto da vide, até que venha o reino de Deus. 19 e, tomando o pão e havendo dado graças, partiu-o e deu-lho, dizendo: isto é o meu corpo, que por vós é dado; fazei isso em memória de mim. 20 semelhantemente, tomou o cálice, depois da ceia, dizendo: este cálice é o novo testamento {ou pacto} no meu sangue, que é derramado por vós.

 Todo texto em negrito e vermelho não faz parte nos melhores manuscritos. Aparentemente, esses versículos foram acrescentados para enfatizar o corpo e a carne reais de Jesus, que ele verdadeiramente sacrificou pelo bem dos demais. Essa pode não ter sido a tônica do próprio Lucas, mas certamente era a ênfase dos copistas proto-ortodoxos, que alteraram o texto de Lucas para barrar cristologia docetistas, como a de Marcião, por exemplo.

Lucas 24:12 - 12 Pedro , porém, levantando-se, correu ao sepulcro e, abaixando-se, viu só os lenços ali postos; e retirou-se, admirando consigo aquele caso.


O texto acima de Lucas 24:12, trata-se de um acréscimo que dá boa impressão à posição anti-doceta, que Jesus somente parecia ser humano, mas não era, e tal texto vai ao encontro da posição proto-ortodoxa segundo a qual Jesus não era meramente uma espécie de fantasma, mas tinha um corpo físico, real. E isso era reconhecido por ninguém menos que o principal apóstolo o próprio Pedro. Portanto, em vez de encarar o relato do tumulo vazio como uma “história boba” de algumas mulheres inconfiáveis, o texto agora mostra que o relato não apenas era crível, mas verdadeiro como Pedro como testemunha. E o que é mais importante, o verso ressalta a natureza física da ressurreição, porque a única coisa deixada no túmulo é uma prova física da ressurreição: os panos que envolveu o corpo de Jesus . Essa foi uma ressurreição corporal de uma pessoa real. Resumindo o texto foi acrescentado pelos copistas cristãos que combatiam a cristologia docetista que defendiam que cristo somente parecia ser humano, apenas dava a impressão de que era humano, porém era completamente divino.

 

Lucas 24:51 - 51 aconteceu que, enquanto os abençoava, ia-se retirando deles, sendo elevado para o céu. 52 então, eles, adorando-o, voltaram para Jerusalém, tomados de grande júbilo; 53  e estavam sempre no templo, louvando a Deus.

 

O texto em acima não faz parte dos melhores manuscritos, porém consta na maioria das traduções atuais. Esse é um acréscimo significativo, porque ressalta a fisicalidade da partida de Jesus por ocasião de sua ascensão (bem mais forte do que o brando “ia se retirando”). Esse acréscimo é, de certo modo, intrigante porque o mesmo autor, Lucas, no segundo livro de sua obra, o livro de Atos dos apóstolos, volta a narrar a ascensão de Jesus aos céus, mas afirma explicitamente que ela ocorreu “40 dias” depois da ressurreição. Conforme texto abaixo:

 

Atos 1: 1 no primeiro livro relatei, ó Teófilo, todas as coisas que Jesus começou a fazer e a ensinar, 2 até o dia em que foi recebido acima, depois de haver dado preceitos pelo espírito santo aos apóstolos que escolhera; 3 aos quais ele também, depois de haver padecido, apresentou-se vivo, dando disto muitas provas, aparecendo-lhes por espaço de quarenta dias e falando das coisas concernentes ao reino de Deus.

9 tendo dito estas coisas, foi Jesus elevado à vista deles, e uma nuvem o recebeu e ocultou aos seus olhos.

 

Isso torna mais difícil acreditar que Lucas tenha escrito a frase em questão em Lucas 24:51- dado que, com certeza, não podia acreditar que Jesus ascendera aos céus no mesmo dia em que ressuscitou, e se ele mesmo Lucas afirma no inicio de seu segundo livro, Atos dos apóstolos que ele Jesus   ascendeu ao céu 40 dias mais tarde. Também se deve notar que a palavra-chave em questão (“foi arrebatado ou foi elevado”) nunca ocorre em nenhum outro trecho, nem do evangelho de Lucas, nem do livro de Atos dos apóstolos. Por que, então, alguém teria acrescentado essas palavras? Sabemos que os cristãos proto- ortodoxos queriam enfatizar a natureza física, real da partida de Jesus da terra. E eles afirmavam isto contra os docetas, que defendiam que tudo ocorrera apenas na aparência. Um copista envolvido nessas controvérsias modificou o texto para destacar o ponto e assim refutar a cristologia docetista.

 

3)      mudanças anti-separacionistas

Mudanças para justificar que cristo não era nem homem e nem divino ao mesmo tempo e que nem se separaram em dado momento.

Hebreus 2:9 – sem Deus provasse a morte por todos ou pela graça de Deus provasse a morte por todos. Nos melhores manuscritos o texto diz:

... “Assim sendo, sem Deus ele deve provar a morte por todos.”

 Aqui para refutar o ensino que Jesus   foi abandonado na cruz por Deus, os copistas trocaram sem Deus por pela graça de Deus. Para refutar tanto os adocionistas como os separacionistas. Esse caso já havia sido tratado antes. Existem outras mudanças que foram feitas para refutar o ensino da cristologia separacionista, porém que foram depois reparadas, ou seja, foram corrigidas, por exemplo:

Um manuscrito de Marcos não traz a passagem que Jesus brada : “ Deus meu, Deus meu por que me abandonaste” que está em Marcos 15:34. No lugar trazia a seguinte mudança:

“meu Deus, meu Deus, por que escarneceste de mim?”


Tal mudança foi feita para refutar a cristologia separacionista de que cristo se separou de Jesus na crucificação, e esse texto era o predileto dos separacionistas para defenderem que cristo abandonou Jesus na hora da crucificação. Este erro, porém, foi há muito tempo corrigido. Como exemplo final de uma variante desse tipo, inserida para refutar e barrar a cristologia separacionista encontramos um texto mudado, que consta num manuscrito antigo dos primeiros séculos da 1ª epistola de João. A mais antiga forma do texto diz:

I João 4:“ 2 nisto reconheceis o espírito de Deus: todo espírito que confessa que Jesus Cristo veio em carne é de Deus; 3

e todo espírito que não confessa a Jesus não procede de Deus; pelo contrário, este é o espírito do anticristo,

 É uma passagem clara e direta: só aqueles que reconhecem que Jesus veio realmente na carne pertence a Deus; aqueles que não reconhecem isso são opostos a cristo (anticristo). Mas existe também um manuscrito que ocorre uma mudança na segunda metade da passagem. Em vez de se referirem àquele “que não confessa Jesus ”. Vários manuscritos se referem, em vez disso:

“àquele que divide Jesus ”...

 O que esse divide Jesus significa? E por que, essa variação de texto se introduziu em alguns manuscritos antigos dos primeiros séculos? Com certeza para fornecer uma base bíblica contra as cristologias separacionistas, nas quais Jesus e cristo são separados um do outro como duas entidades separadas, ou como uma variante que afirmasse que Jesus “se dividiu” do cristo. A mudança textual condena qualquer um que vier a apoiar essa perspectiva separacionista, dizendo que esses não são de Deus, e de fato, são, anticristos. Mais uma vez, encontramos aqui uma mudança textual nos manuscritos gerada no contexto das disputas cristológicas dos séculos II e III.

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